Com 79 anos ele se apresentou ao hospital como quem cumpre deveres cívicos.

Cambaleando, entregou a carteirinha, assinou o termo e foi encaminhado, na cadeira de rodas, ao quarto coletivo que, por sorte, ainda estava vazio. Sob a supervisão da  enfermeira, retirou sapatos e meias e despiu-se das calças, camisa sem bolso e cueca, vestindo em seguida o camisolão com abertura nas costas.

“Por que nas costas?”, pensou.

Pensou também nos dois filhos, nos cinco netos, na esposa falecida. E na possibilidade remota (ainda bem) de encontrá-la dentro em breve. Deixou de acreditar no post mortem há anos, entre um café  e outro sem cigarros.

“Faz trinta e nove anos que larguei”, disse de si para si, orgulhoso do feito.

Só não sorriu como de outras vezes por causa da dor aguda, logo abaixo das costelas e sabe-se lá em qual órgão, que o fez despertar de seu ligeiro torpor. Era questão de horas ou dias e nesse ínterim ainda haveria uma ou duas ocasiões em que se lembraria do dia em que deixara de fumar.

4 comentários sobre “Vitorioso

  1. Na mesma semana, receberá um e-mail, ainda em recuperação. Logo, viria a volta ao trabalho, a seus alunos, a seu cotidiano. Antes, porém, uma latente tarefa: em suas mãos, um exemplar de seu próprio livro… Aquele fruto de esforço que lhe lograra um prêmio no início do século.
    Embalou-o e, assim que pôde sair do resguardo, foi aos correios. Meses se passaram… porque revivia isso? Porque logo hoje? Uma névoa misturava a memória, os sentidos e as certezas da vitória. Enquanto encarava a tela do computador, pensava: estou aqui, vivo, sendo lido, conectado a tantos outros… Ganhei a oportunidade de continuar vivendo e, com ela, de ser surpreendido.

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  2. O dia em que se para de fumar é mesmo memorável e o ato, motivo de muito orgulho, porque, por experiência própria sei, é das coisas mais difíceis de realizar. Para mim, creio que foi a mais difícil. Seu personagem é um forte.

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    1. É forte, o personagem…
      Ouvi outro dia do Dráuzio Varella, respondendo ao Jô Soares, que após décadas sem fumar, caso recebesse notícia sobre uma doença terminal, a primeira coisa que faria seria acender um cigarro para ajudar a pensar no caso.
      Imagino como foi difícil para você, Martha.
      Eu já andei tentando, mas enfim, mesmo quando não fumo, continuo sendo tabagista…
      Não recomendo a ninguém que comece e, como vc, considero quem realmente consegue se livrar do vício, uma pessoa forte.
      Um abraço!

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