Tudo que podia ser dito já o foi.

Não há experiência nova: todas elas foram vividas no passado, no presente e no futuro, este velho conhecido.

Elas transitam rapidamente pelos inúmeros veículos criados ou a se criar, entrecruzando-se nas estações concretas ou neuronais até se diluírem no tédio premeditado das notícias requentadas.

Certa vez ouvi falar do eterno retorno do mesmo e hoje vejo que ele se tornou o amanhã do ontem, e também do anteontem e do depois de amanhã.

O fim da originalidade foi decretado, não havendo mais obra do espírito ou das carnes que já não esteja em um milhão de papéis, telas, partituras, contornos, êxtases ou dores atrozes.

Tudo se tornou previsível e sem graça, o mundo é apenas o mundo, assim como o céu, o espaço sideral e o fruto da árvore proibida, que pode ser bebido ao se converter em suco de caixinha, disponível nos supermercados.

Não há pensamento novo e arte nova, nada de diferente nos comportamentos e nos sentimentos, nenhuma tristeza em admitir que a estas palavras também falta originalidade.

A própria metáfora foi classificada e o susto, este gozo da alma, é tão previsível quanto os dez bilhões de títulos catalogados.

A surpresa repousa serenamente no sofá da previsibilidade, ao lado do saco de pipocas e em frente ao televisor: o banco de dados da mesmice sem fim.

Não há criança que não nasça sabendo de tudo, jovem que não torça o nariz diante das novidades repaginadas e idoso que não almeje, ainda que na morte, seu quinhão do desconhecido.

Daí o dizer por dizer, a tagarelice sem fim, a pressa em alcançar, com o mínimo de esforço, este ponto final.

2 comentários sobre “Eterno retorno

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