Salto, 15 de outubro de 2017.

Não sou professor, ou melhor, não sou apenas professor.

Às vezes digo isso aos estudantes no início do ano letivo, como provocação. Ao longo do diálogo que se segue eles acabam entendendo minha posição, isto é, a de que todos nós representamos vários papéis ao longo da vida.

Começo esta carta assim para evitar equívocos, neste caso, o de que mulheres e homens se definem pelo seu ofício. Penso que somos muito mais, ainda que a cultura dominante fomente, desde o amanhecer de nossas vidas, a construção de rótulos pessoais, incluindo os relativos à profissão; rótulos estes que são camisas de força muito apertadas, tolhendo nossos movimentos.

Não partilho desse ideal e, portanto, não sou apenas professor, da mesma forma como não sou apenas trabalhador, estudante, amigo, esposo, pai, filho.

O ser humano pode, caso deseje, ser muito mais que um rótulo.

Na escola, onde exerço a profissão há vinte anos, entendo-me como educador, isto é, algo mais amplo e que envolve uma reflexão coletiva em torno de caminhos e escolhas, e não apenas sobre conteúdos de uma disciplina.

Ser educador, para mim, implica questionar (a mim mesmo, aos demais educadores, aos estudantes e à sociedade como um todo) como fomos definidos e refletir sobre quem podemos ser neste mundo desigual e injusto que herdamos.

Questionar não é doutrinar, da mesma forma que educação não é sacerdócio, escola não é igreja e estudantes não são um rebanho. Questionar é exercer livremente, e ao longo de toda a vida, as faculdades que desabrocham na infância: a curiosidade, o prazer de pensar, o desejo de entender os porquês e de se despir das camisas de força. Em outras palavras, refletir sobre os limites impostos pelo preconceito e (por que não?) romper com eles e com sua matriz: a desigualdade.

Ser educador, então, é muito mais que profissão, é uma escolha ética entre caminhos possíveis. Caminhos que passam pela escola, que jamais foi ponto de partida nem muito menos de chegada, mas estação apropriada para o exercício do questionamento e da reflexão.

Nela podemos cultivar as faculdades que desabrocham na infância e que, como educador, espero que jamais sejam podadas. Quando elas se desenvolvem livremente, afrouxam-se os laços das camisas de força, de modo que podemos aspirar por um mundo muito melhor do que este que herdamos.

4 comentários sobre “Carta aberta de um educador

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