Não é difícil reconhecer que somos ensinados desde a infância a querer sempre mais. E não apenas em relação a coisas materiais. Nossa cultura ensina que a felicidade se encontra no futuro e que para alcançá-la precisamos nos aperfeiçoar.

Aprendemos isso em casa, na escola, com as pessoas com quem nos relacionamos: que não estamos prontos, que precisamos melhorar e que, só assim, atingiremos o sucesso, identificado com felicidade.

As crianças são estimuladas a serem as protagonistas, jamais coadjuvantes e, de jeito nenhum, figurantes. O problema é que há poucas vagas para astros e estrelas e a maioria, insatisfeita com papéis menores, acaba assumindo a condição de fracassada. Passa, então, a projetar seus sonhos nos filhos. Se não consegui “vencer”, por despreparo ou má sorte, eles vencerão.

Com o ideal de sucesso individual transmitido de geração para geração, todos se acotovelam uns contra os outros tentando garantir um lugar no palco. Como ninguém deseja ser plateia nesse drama dantesco, tornou-se crença geral que a felicidade privilegia apenas os atores principais, os merecedores dos holofotes. E quanto aos demais? Seu fracasso deve servir de estímulo para que, no futuro, com um esforço extra, também sejam bem-sucedidos…

Mas o que é o sucesso?

É se destacar em alguma coisa, no mundo dos negócios, na política, nas artes, no esporte? É ganhar muito dinheiro e poder comprar e experimentar todas as coisas desejáveis? É atingir a “perfeição” física, intelectual, moral ou espiritual?

A definição parece correta, a ideia de sucesso é cada uma dessas coisas e muitas outras mais. Cabe, contudo, refletir se o esforço vale a pena.

Com exceção dos poucos “bem-sucedidos” exibidos como chamariz, a maioria entende sucesso como algo ainda a ser conquistado, de preferência em futuro próximo. Com os olhos fixos na miragem, cada um dá tudo de si e um pouco mais para um dia se realizar, antecipando mentalmente as coisas boas que virão apenas, e só apenas, quando o sucesso for atingido.

Nesse ínterim que costuma durar a vida inteira, predomina a insatisfação, pois o sucesso continuará sendo privilégio dos poucos que cabem no pequeno palco, ao passo que a maioria, disfarçando sua inveja com aplausos, perpetuará sua condição de fracassada.

2 comentários sobre “Miragem

  1. Já sentia saudade de suas postagens, meu caro! Descreveu muito bem o clima no qual vejo meus primos mais jovens e alguns colegas de cursinho vestibular estão. Mesmo alguns colegas de graduação e amigos da pós já demonstram essa obsessão por serem “os melhores”. Raros são os que têm tempo para ouvir os outros e participar da vida dos amigos. Alienação total do sentido de estarem estudando ou vivendo. Não me tiro da jogada não, mas a consciência disso me faz buscar um caminho diferente, cada vez mais

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