[Por Vanessa Bortulucce, Historiadora da Arte]

“Façamos colagem de amor.

Pegar pedaços de papeis bem pequenos, recortes de textos, frases soltas, um pouco daquela música, colar no rosto dele, construir o teu desejo, o teu, apenas o teu, que se dane o dele.

Espalhar a mão dela, que já conhece bem aquelas artes, pelos quadris dele, oferecer a ele, de fato, o inimaginável, o segredo das outras idades, o risco, o recorte do papel, o talho das intenções.

As palavras que sair da boca dela de nada adiantarão; no caso dele, só os movimentos são importantes, necessários, suficientes. Duas vezes ela já havia mostrado os ombros e o colo, ombros rosados do sol de novembro, ela já havia feito os gestos básicos da sua gramática particular, e, afinal de contas, aquilo que ela realmente desejara não acontecera.

Rejeitada por um corpo, de repente descobre-se febrilmente desejada por um outro. Daí a colagem de amor, o truque imperfeito, a decisão de jogar mais uma rodada.

Mas tudo isso precisa realmente ser feito? Veja, não é uma imposição, não é uma condenação. Nada existe de inevitável nesta situação. Mas que chance, que emoção, poder desfrutar em segredo de suas lascívias particulares!

A espera a faz sentir o amargor da indecisão e as noites que passa sozinha na cama, fumando o cigarro no escuro e imaginando os odores daquele corpo.

O ato em si, uma espécie de quarto sujo, um subúrbio lotado de luminosos nas ruas, cafés decadentes, suor e lento cansaço, preguiçoso movimento para a cama.

Bem ali, o corpo, o guia turístico dos roncos de motores de carros e motocicletas, fragmentos de episódios desconhecidos, uma estrada cheia de vento, uma cor nova, sistemas delicados. Suficientes para me levar ao zero, outra vez.

Quem sabe ele consiga me despedaçar, pegar estes meus pedaços tão mal-colados nestes últimos meses, e os rearranje de uma forma nova, tomara que na força do desejo dele eu possa descobrir o meu tal qual era desde antigamente, tomara que eu possa alimentar meu sangue com seus fluídos e palavras que escorrem moles para o interior de meus ouvidos, tomara que ele me reconstrua com destruição e zelo, fazendo escorrer minhas dores através do meu corpo, escorrendo pelas costas, pelo meio das pernas, pelos tornozelos. Quero ser estátua quebrada pelas mãos dele. Uma poça d’água que fica depois da chuva e se evapora para ser respirada, é isso que eu quero ser. Quero ser cheirada, moldada, dobrada, pra em seguida olhar para mim como se fosse a primeira vez. Uma nova colagem. Refeita, recriada, renascida pela força primal do homem. Re-fecundada, re-fotografada, reza pronta para ser lida outra vez.

Afinal, ninguém sabe ao certo o que é romance. Ninguém poderá afirmar que ele não seja também feito de absurdos, de sujeira, de ranços, de equações insinceras.

Assim, tudo o que eu espero dele é que ele me lave, cansei de enxaguar a minha vida com umidades traiçoeiras.”

 

Imagem: “Nu cubista n. 1”, de Anita Malfatti

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