Em minha modesta opinião, aulas não deveriam ser dadas em série, uma após a outra até o esgotamento da energia de professores e alunos.

Sei bem o que é isso: muito antes de começar a lecionar, trabalhei como operário na linha de montagem industrial. Nela eu não tinha tempo de pensar, refletir, imaginar ou criar. Jamais amei essa atividade, da qual me livrei ainda na adolescência para reencontrá-la,  em outros moldes, nas salas de aula, como aluno e como professor.

Lecionar, no sentido profundo do termo, exige reflexão antes, durante e depois da aula ministrada. Envolve tempo livre para pensar, refletir, imaginar e criar, atividades sem as quais o ato de ensinar reproduz as engrenagens da indústria.

Não vejo meus alunos como matéria-prima, nem os formandos como produto industrializado. Mas é assim que o sistema educacional, reprodutor do sistema industrial, nos força a atuar, como capatazes da linha de produção.

Certamente reside nessa condição, à qual fomos reduzidos, o semblante de frustração de professores e alunos antes mesmo do início da aula. Para quem trabalha em linhas de montagem, a sensação de inutilidade começa antes mesmo que o ponto seja batido.

Imagem: Pink Floyd The Wall

IImagem

8 comentários sobre “Ensino e indústria

  1. Com frequência digo que os melhores aprendizados que tive foram nos intervalos ou ao término de uma aula, conversando com o professor. A formação de um para um é absolutamente diferente da formação de um para muitos. Outros elementos estão envolvidos.

    Acredito que os peripatéticos tinham uma dinâmica de compreensão diferente da nossa. A prática de ensinar e aprender caminhando nos dá a sensação física de progresso, de evolução, de que o conhecimento não é estático.

    Até me ocorre agora que o termo evolução é associado ao desfile de uma escola de samba na avenida e é curioso como esse sentido, no aspecto físico, está dissociado do método de aprendizagem. Talvez por não ser interessante para o pensamento único e para a compreensão fabril da realidade.

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  2. Sonho com dias melhores na educação! Este sistema que aí está, é algo que já está bastante ultrapassado e desgastado. Minha avó aprendeu no mesmo sistema em que meu filho está aprendendo… e isto é massacrante demais! :p
    Reconheço a falha, mas não consigo imaginar a solução. Não sem um investimento adequado (urgente!!!)
    Parabéns pelo texto! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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