Com a novela dos escândalos políticos, convencionou-se dizer que o povo brasileiro participa da cultura da desonestidade; que os casos envolvendo lideranças governamentais e empresários são apenas a ponta do iceberg, uma vez que todos nós somos coirmãos na prática do “jeitinho”.

Leio artigos e vejo vídeos de intelectuais famosos encantando suas plateias com lindas citações da literatura e da filosofia e outras, não tão belas, da história, para comprovar que sim, somos um povo culturalmente propenso à corrupção.

A causa é antropológica, metafísica ou, mais concretamente, ela emana de nossas origens históricas. Somos o produto do patrimonialismo português, do modelo de colonização adotado ou, quiçá, da influência nociva dos famosos degredados que aqui aportaram.

Quem sabe, até do clima…

De fato, esse raciocínio, se aplicado a uma criança recém-nascida cujo bisavô fora um criminoso, desencadeará a conclusão, absurda, de que na vida adulta ela terá as mesmas tendências de seu ancestral.

Tenho a impressão de que o exercício em questão, o de procurar as causas remotas da cultura da corrupção, até faria sentido caso nossos intelectuais, em primeiro lugar, dispusessem de provas de que nossa cultura é de fato assim.

Existem pesquisas científicas que comprovem que somos um povo que comunga da cultura da desonestidade? Onde estão os estudos a respeito, de preferência comparativos com outras culturas e efetuados por instituições neutras de vários países e por pesquisadores das mais variadas linhas de pesquisa? Há uma teoria desenvolvida com base em metodologia pertinente e posta à prova no debate exaustivo entre os pares? Pois é assim que se faz ciência.

Caso não haja, o que temos é apenas o velho preconceito.

E, neste caso, ao ser difundido e reforçado por intelectuais de renome, cuja elegância e erudição encantam leitores e espectadores, ele alimenta nossa tendência a acreditar que, já que somos assim, o negócio é continuar sendo ou, se não somos, o melhor é começar a ser.

Pior que isso, o preconceito justifica a corrupção de elementos de nossa elite econômica e política e torna cada um de nós cúmplices diretos ou indiretos de seus crimes. Faz do povo, que é vítima, culpado, uma vez que os crimes nos altos escalões seriam apenas expressão da corrupção que emana de nós.

Os intelectuais em questão parecem não notar que uma opinião compartilhada não faz dela uma evidência; que ela, em muitos casos, não passa de preconceito; e que o papel do intelectual é estabelecer a crítica sobre ele, ainda que não receba os aplausos da plateia.

Por uma questão de honestidade intelectual.

6 comentários em “Jeitinho brasileiro?

  1. Ariano Suassuna nos lembra que o “jeitinho brasileiro” é um modo que o indivíduo oprimido tem para lidar com as adversidades impostas. Esse sentido pejorativo predominante, de pessoa que deseja levar vantagem em qualquer situação, não é algo típico do brasileiro, é um problema ético, de caráter, observável em muitos lugares do mundo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pensamento muito sensato, o seu! Muitos brasileiros parecem descender do Zé Carioca, mas observar um povo pelas lentes do senso comum não é o melhor caminho para o conhecimento desse povo, como sabemos.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s