Começo pelo antipático, pois é muito difícil ser simpático sendo inteligente.

Então é pegar ou largar, e se valer a sugestão, largue e não exercite. É que um dos exercícios para refinar essa faculdade consiste em esgotar os pensamentos até que eles se revelem corretos ou incorretos. E isso só é possível pondo cada um deles à prova no debate meticuloso que, como tal, nada tem de simpático.

O debate, naturalmente, deve ser precedido da reflexão, outro exercício indigesto, causa de gastrites, angústia e outros tremores da pele. Não raro conduz ao debate, mas antes produz rugas e cabelos brancos.

A reflexão, por seu turno, envolve leitura de livros, do mundo e de seus habitantes, exercício que desgasta as vistas, ouvidos e muitas vezes o coração.

Vê-se desde já que o exercício consciente da inteligência nada tem a ver com simpatia, que é a arte de sorrir em velórios, de fazer vistas grossas à ignorância ou de admitir preconceitos como se fossem verdades. Razão pela qual reforço, enquanto é tempo, a primeira sugestão: mais vale um simpático ignorante do que um chato.

Caso, contudo, goste de se exercitar, comecemos de novo e desta vez pelo começo. Pois antes do debate, é preciso levar em banho-maria a tal da reflexão, palavra muitíssimo usada a despeito de sua natural discrição: seu ambiente é a invisibilidade dos antros cerebrais e do coração, no interior dos quais se alimenta do mundo e de seus habitantes, entre eles o próprio sujeito que reflete, isto é, você que se candidatou a praticar o exercício consciente, mas antipático, da inteligência.

Deve ter notado, desde já, que não há limites para o exercício e que tão logo um pensamento é esgotado, outro toma seu lugar, pois o mundo é imenso, a quantidade de preconceitos infinita e a ignorância do sujeito que reflete, eu ou você, um poço sem fundo.

É bom que se diga que os preconceitos chegam prontos e, caso opte pela simpatia, nada é preciso fazer: basta rir das piadas e de suas vítimas. Caso, contudo, você queira se exercitar, notará que ao se apresentarem, os preconceitos pedem que sejam aceitos sem resistência ou ponderação. Eles são as embalagens em que o mundo, seus habitantes e o próprio sujeito que reflete são apresentados, de modo que a leitura e a reflexão começam com o ato de desembrulhar, pois o que importa para quem se exercita é o conteúdo e não a embalagem.

Às vezes, por pura ansiedade, rasgamos a embalagem e danificamos o conteúdo. Neste caso, o melhor a fazer é começar tudo de novo, lançando as vistas ao largo e evitando produtos à venda nas prateleiras. Caso consiga desembrulhar o produto adequadamente, isto é, sem danificar o conteúdo, preste toda a atenção e evite ficar horrorizado ou fascinado com o que vê. O caminho do meio, aqui, é pavimentado com paciência e ruminação, critérios que até podem evitar a gastrite, mas jamais os cabelos brancos.

Explico: da mesma forma que o exercício físico estufa músculos, o exercício consciente da inteligência, sendo lento, em geral trará frutos quando as rugas da idade se manifestarem. É bom lembrar, porém, que os cabelos brancos e a pele enrugada não são prova de inteligência, pois com o tempo todas as peles enrugam e os cabelos encanecem, mesmo os de quem optou por sorrir em velórios, por fazer vistas grossas à ignorância ou por admitir preconceitos como se fossem verdades.

Para os demais, como você que me seguiu até aqui, repito, paciência e ruminação é o melhor remédio contra a presunção e demais constipações do ego, pois eles também se convertem em antipatia, inclusive a minha.

Certos preconceitos são fáceis de desembrulhar. A crença de que uma raça é superior a outra, de que o homem deve ter privilégios em relação à mulher, de que existe orientação sexual certa ou errada ou de que só é pobre quem quer ou quem não se esforça, por exemplo, são embrulhos que não resistem ao mínimo toque da reflexão.

Como sabemos que, nestes casos, você não teve gastrite e, muito menos, ficou de cabelos brancos para descobrir que esses conteúdos eram ocos, talvez imagine que, na fase seguinte, a do debate, as coisas continuarão a fluir com facilidade. Não se engane! É justamente nessa etapa que a porca torce o rabo, e talvez seja a hora de desistir caso a ânsia por se mostrar simpático supere o desejo de exercitar conscientemente a inteligência.

Se optar pela simpatia, que entre outras coisas garante popularidade e convites para festas, faça de conta que não ouviu ou finja que achou graça das piadas que costumam embalar os preconceitos. Caso não consiga rir e sinta ganas de questionar, o melhor é pedir licença e se afastar um pouco, assim continuará simpático e tudo no mundo permanecerá exatamente igual ao que sempre foi.

Por outro lado, caso decida discutir, esteja preparado para o pior: no final todo mundo saberá que você é realmente um chato.

Dirão, logo de cara, que você não possui senso de humor, que precisa encarar a vida com mais leveza, que precisa desenvolver sua inteligência emocional, que está na hora de procurar um terapeuta ou, até quem sabe, um psiquiatra.

Nessa hora, você tem duas opções, ambas amargas.

A primeira é respirar profundamente, engolir tudo o que disse e reconhecer na frente de todos que teve um dia difícil e que agradece pelas palavras amigas. Alguém dará um tapinha em seu ombro e dirá que já passou por isso e que todos o entendem. Por dentro você se sentirá um pulha, mas pelo menos garantirá sua soberana simpatia.

A outra opção, caso continue a exercitar a inteligência, é ainda mais cruel: ela o levará a debater o juízo dos convivas item por item e, à medida que a paixão, que é inevitável, se expressar em seu rosto, notará que, um de cada vez, todos se afastarão, de modo que argumentará sozinho na manhã e nos dias seguintes, debatendo consigo mesmo se valeu a pena o exercício consciente, mas antipático, da inteligência em público.

No caso de reincidência, saiba desde já que será evitado, os convites rarearão e você inevitavelmente passará a debater apenas consigo mesmo, que é o mesmo que reflexão. No fim, acabará se dedicando à horticultura, à gastronomia ou, caso não tenha talento, à escrita, que é também um exercício de paciência e ruminação, com a vantagem de ser menos antipático, pois quase ninguém lerá o que escreve e, caso alguém leia, fará pouco caso da embalagem e, principalmente, do conteúdo.

Se você continuou até aqui, admita que é um chato. Como tal, deve ainda considerar outros preconceitos, pois alguns são mais resistentes aos toques da reflexão, talvez por serem compartilhados por pessoas como você e eu, chatos que debatem entre si.

Como os preconceitos são quase tão infinitos quantos as palavras, e sendo o exercício da classificação chatíssimo, sugiro esgotar pelo menos um preconceito, o que encabeça este texto: a insinuação de que inteligência e simpatia se excluem.

Como já foi dito, o exercício começa com a leitura de livros, do mundo e de seus habitantes, inclusive do sujeito que reflete, você e eu. Os passos seguintes são a reflexão e, talvez o mais importante, a prova do debate acalorado.

Digamos que você já dispõe de rugas e de cabelos brancos ou de eventuais gastrites e outros tremores da pele, uma vez que as duas primeiras etapas foram concluídas meticulosamente, isto é, leitura e reflexão. Neste caso, inevitavelmente descobrirá que a derradeira etapa, a prova pelo debate, não pode ser concluída, uma vez que, sendo chato, ninguém desejará debater contigo, com exceção dos demais chatos, o que não prova nada.

Sendo assim, o exercício consciente, mas antipático, da inteligência, é inútil, tanto em relação a preconceitos frágeis, como os mencionados, ou em relação a todos os outros, inclusive sobre a crença na inteligência dos chatos, a qual só poderia ser provada no debate que jamais ocorrerá.

Irremediavelmente apanhado nesta armadilha, será forçado a admitir, caso seja honesto – o que também soa como chatice –, que não sabe o que é inteligência, ao contrário de todos os simpáticos, pois eles se esquivam de tudo o que possa refutar a sua e, assim, são infinitamente mais inteligentes do que você.

E com uma vantagem: não terão perdido seu tempo precioso com esta chatice que você, sendo chato como eu, leu até aqui.

 

Imagem: https://pxhere.com/pt/photo/703557 (domínio público)

2 comentários em “Diretrizes para o exercício consciente, mas antipático, da inteligência

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