[por Filipe Marson]

Nunca pude negar meu desejo por filmes, as pessoas ultimamente estão vidradas em séries, dessas televisas que raramente possuem uma sequência breve. Os filmes pelo contrário, a maioria deles já te confiam de cara seu final, acabando logo com a ansiedade gerada.

Um dos filmes que marcou a trajetória do cinema nacional, um dos meus preferidos “Central do Brasil” (1998) tirou lágrimas do público, contando a história de Dora, uma amargurada professora aposentada que ganha a vida escrevendo cartas às pessoas analfabetas, que ditam o que querem contar às suas famílias que estão morando longe. O enredo continua quando ela encontra-se com Josué, um garoto que perde a mãe e que Dora se vê na responsabilidade de ajudá-lo a encontrar seu pai no nordeste do país. Talvez na tentativa de reparar aquilo que lhe trazia culpa, a professora não enviava as respectivas cartas, daqueles que recorriam ao seu serviço.

Ao longo do meu trabalho (trabalho social com famílias), deparo-me com inúmeros Josués que de algum modo, suplicam para que os ajude a contar suas histórias, são inúmeras pessoas que precisam de ajuda para integrar a própria vida, por sentirem um grande vazio no espaço e tempo em que são inseridas e que sem destino, vivem à míngua.

Fazia sol num determinado dia, do qual me recordo da presença de um rapaz que desejava partir para outra localidade, era uma pessoa que sem compreender seu próprio universo, vivia de lugar em lugar tentando encontrar-se. Esse jovem então pediu-me para realizar uma ligação para sua mãe que residia também no nordeste do país, ficou aflito quando lhe disse que ninguém estava atendendo ao chamado do telefone, foi então que pediu me-para ligar para a irmã.

De súbito, a irmã atendera o telefone, identifiquei-me, dizendo que estava com seu irmão em minha frente. A mulher toda apreensiva, não sabia o que dizer para me agradecer pela ligação e endereçava aos céus sua gratidão por encontrá-lo vivo. O rapaz apanhou o telefone e com lágrimas nos olhos, agradecia a irmã, por algo que não sabemos quando, a mesma havia feito por ele. Disse a ela que estava bem, que estava vivo e que ainda não encontrava-se pronto para o retorno, se é que um dia haveria de retornar. De maneira intrincada, pouco pode expressar-se naquela ligação, contudo percebi a grande importância e o valor dessa vinculação, dessa ponte e da ferida que o tempo havia deixado configurado nessa relação. Sem muito, para evitar aquele momento de sofrimento, desligou o telefone se despedindo.

O rapaz me agradeceu compelido, agarrou suas coisas e partiu em busca de um outro caminho. Fitei meu olhar para o lugar nenhum, fiquei com a sensação desse vazio, dessa falta, dessa ausência, quem sabe daquilo que Dora não podia suportar e que encontrou em Josué seu sentido de vida.

Publicado originalmente em http://www.candeia.jor (31/07/2017)

Um comentário em “Lugar nenhum

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