Vovô Felício ensinou muita coisa boa e uma delas virou lição. Faz tempo e o mundo parecia simples, mas na verdade não era, vivíamos na escuridão. Não sei a data, mas me lembro da década, de 1970, e eu tinha seis ou sete anos, quando muito uns nove.

Acho que era de manhã, provavelmente de agosto. Digo isso pensando no vento forte, ótimo para empinar pipas. Como disse, era de manhã e eu brincava sozinho na varanda quando vovô chegou.

Havia um gramado e, no meio dele, o broto de uma mexeriqueira se espreguiçava timidamente para o alto. Nasceu das sementes lançadas a esmo e se fosse regularmente regado cresceria e daria frutos. Vovô sugeriu que eu cuidasse da plantinha, mas eu era preguiçoso. Além do mais, a casa era alugada.

– E daí?

– Estaremos longe quando der frutos…

– Eu sei filho, mas outros poderão colhê-los.

Eu continuo tão preguiçoso quanto antes, mas meu avô Felício me ensinou a regar.

 

Publicado originalmente na coluna “Memória Trêmula” de 29/10/2014 em: http://www.candeia.jor.br

Imagem: Mandarin Orange, de Youqing Wang

 

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