Ela acabou se acostumando com a vida ao relento literal, isto é, em andrajos de dia e com pouco cobertor à noite, uma sina nada perfumada, a não ser com o cheiro azedo, mistura de fuligem, poeira e suor com o agravante do chorume das latas de lixo, de onde pesca restos de alimentos desprezados pelas ratazanas que se esgueiram dos bueiros à luz do luar e dos postes que brotam do calçadão no entorno da catedral e que a proíbem de um mínimo de privacidade, essa que você e eu tanto amamos, principalmente quando nos engalfinhamos em pelejas com Eros de portas e janelas fechadas, ou seja, ela acabou se acostumando com a vida ao relento sem metáforas, sua mochila é um saco preto de plástico e nela cabem um casaco, um tênis e um cobertor que alguém, você ou eu, doou durante a campanha do agasalho, além de uma garrafa de aguardente para acalmar o frio, principalmente quando um jato d’água, um chute nas costas, uma voz de comando a faz despertar, mas ela não tem para onde ir, ela sabe que é assim mesmo e que há esperança, uma luz no fim do túnel, o iminente abraço morno e caridoso da morte.

Imagem: Os moradores de rua em São Paulo, de Hugo Espíritu Escobar

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