A tendência é a de acreditar nos sonhos como coisa.

Nem vou mencionar o seu, amigo querido, de ganhar um monte de dinheiro e não ter mais hora certa para acordar. Nem o dela, que ainda sonha com um príncipe soterrado no tecido adiposo de uma espécie de ogro que ronca assim que se deita e que às vezes arrota, como se fosse canto, uma porção de criaturas minúsculas com gosto de arroz e feijão.

Os meus não são menos ridículos e, dentre eles, o mais ridículo de todos foi – digo foi – o de tornar as palavras em série uma espécie de canto. Jamais aprendi música e acreditem, mesmo assim fui capaz de sonhar que páginas de livros poderiam evocar algo, criar um liame entre nossos eus.

Acreditei inclusive na arte, na ferocidade felina, no uivo e noutras bobagens. Quando as asneiras predominam, elas se convertem em sonho; na obscuridade lamacenta e malcheirosa proliferam fungos e bactérias.

Nada de bom nos sonhos, eles são espectros do não vivido, uma porção da carne sem uso, um adeus com postura de até logo, um nada mais. Houve tempo – digo houve – em que o batuque lá dentro teimoso se ressentia do não ouvido. Não sabendo tocar, aprendeu a teclar, solfejando carícias no papel, mas música é para ouvidos e nem olhos havia, ainda bem.

Quando a cerração evapora, o sol alumia a terra e as carnes expulsam os miasmas noturnos. É então que ficamos sós. Nada além, amigas e amigos, apenas euzinho, isto é, o prenúncio do hoje, jamais do amanhã, este sonho maldito.

2 comentários em “sonhos

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