[Vanessa Beatriz Bortulucce]

Ela já sente a perda desde os primeiros instantes do acontecimento. Ela sorri com os cantos dos lábios, de um jeito meio aristocrático, refinado e contido. A velha catástrofe, já percebida, acenando lá de longe, no horizonte do calendário, presa a um quadradinho com um número qualquer.

Ela sabe. Por Deus, ela sabe e sabe e mesmo assim continua todos os seus gestos, prolonga todas as tuas palavras. Abraçar um amor daqueles sabendo que a batalha já está perdida. Que no coração daquele homem os cômodos já estão todos eles muito bem ocupados. Ela sabe que o homem chega cedo em casa, preocupado com a possibilidade de sua mulher mergulhar no tédio – e no terror – da casa vazia. Quando ele chegar em casa, haverá uma sopa de cebola esperando por ele. Lençóis cuidadosamente dobrados e esticados confirmarão a eficácia da matemática doméstica. Mais tarde, talvez uma televisão, um jornal, um cansaço familiar que os levarão para a cama. E depois a reinvenção do mundo, mais uma vez.

Ela sabe que já perdeu tudo isso. Toda esta história irá durar uns quarenta maços de cigarros, vinte jornais, duzentas viagens de metrô e centenas de recortes de jornais, um dicionário e catorze canções. Mas mesmo assim, apesar de todos os indícios colocados à sua frente como criminosos prontos a ser reconhecidos pela vítima, ela aceita o convite e senta-se na mesa de pôquer. Alisa com a ponta dos dedos o feltro verde da superfície.

Ela tateia os bolsos. Não possui nenhuma moeda. Qual é a aposta? Ela vai apostar o que, se já sabe que irá perder? Porque tamanho prazer em deixar-se transformar, mais uma vez, na segunda opção da carne dos homens? A errata, o adendo febril, a nota de rodapé urgente da literatura alheia. Uma droga. Eis, ela pensa, eis o meu Waterloo, porquê não posso ser Stalingrado, Medéia, pelo menos desta vez? Não existirá Picasso algum para registrar esta Guernica. Está bem, eu aceito. Eu já conheço esta sina, esta perda que já alarga seu estandarte no espaço, eu talvez seja uma destas pessoas especiais, não? Talvez eu seja um dia coroada com aquelas diademas de ouro e pedras, porque reconheço a perda, porque não ignoro sua existência, porque ela anda de mãos dadas comigo, porque minhas veias são elásticas e alongam-se até os seus cabelos, porque tive coragem de olhar bem no fundo daqueles olhos castanhos sem nuvens. Com o passar do tempo, todas as vidas irão estourar no ar como bolhas de sabão. Não existe nada para se preocupar, afinal.

Enquanto isso, ela distrai-se com a possibilidade de ser derrotada mais uma vez,  polindo o metal orgulhoso de seus privilégios secretos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s