Não respondeu como devia, isto é, como eu esperava. Não se fez de vítima, não fugiu nem tampouco reagiu com rispidez.

Cônscia de si mesma, disse apenas que vê o mundo como a um espelho, uma miríade de espelhos que circulam, envolvem, encaram-na em olhos azuis, castanhos, verdes, negros como a noite.

Espelhos revelam menos do que se imagina, eles invertem a ordem das coisas, embaralham, confundem. Não importa se os olhos são do pai, da mãe, da amiga, do amante; quanto mais próximo, menos fiel o reflexo.

Talvez por isso prefira transitar pelo centro e se espelhar em olhos estranhos. Eles nada cobram, quando muito revelam, por descuido, que no vácuo há também colisão. No fundo, sabe que não podem tocá-la, apenas na superfície. Para evitá-los, fez do mundo um panóptico, postando-se vigilante na torre central.

Ela ouviu falar sobre o preço da liberdade, mas não entendeu que o vigia também habita a prisão.

– Sente-se segura?

– Confortável!

Pergunto se é o bastante, mas ela se contrai, aninhando-se na parte escura da torre. Estará chorando? Com medo? Ou simplesmente farta de tudo?

(Continua)

Publicado originalmente em http://www.candeia.jor.br (Coluna Memória Trêmula de 25/02/2015)

 

Imagem: Panóptico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s