Ela (4)

Não respondeu como devia, isto é, como eu esperava. Não se fez de vítima, não fugiu nem tampouco reagiu com rispidez.

Cônscia de si mesma, disse apenas que vê o mundo como a um espelho, uma miríade de espelhos que circulam, envolvem, encaram-na em olhos azuis, castanhos, verdes, negros como a noite.

Espelhos revelam menos do que se imagina, eles invertem a ordem das coisas, embaralham, confundem. Não importa se os olhos são do pai, da mãe, da amiga, do amante; quanto mais próximo, menos fiel o reflexo.

Talvez por isso prefira transitar pelo centro e se espelhar em olhos estranhos. Eles nada cobram, quando muito revelam, por descuido, que no vácuo há também colisão. No fundo, sabe que não podem tocá-la, apenas na superfície. Para evitá-los, fez do mundo um panóptico, postando-se vigilante na torre central.

Ela ouviu falar sobre o preço da liberdade, mas não entendeu que o vigia também habita a prisão.

– Sente-se segura?

– Confortável!

Pergunto se é o bastante, mas ela se contrai, aninhando-se na parte escura da torre. Estará chorando? Com medo? Ou simplesmente farta de tudo?

(Continua)

Publicado originalmente em http://www.candeia.jor.br (Coluna Memória Trêmula de 25/02/2015)

 

Imagem: Panóptico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s