Fingiu não entender; nem sempre o despertar é abrupto como prega a Escola do Sul. Mantendo distância, transformou tigre, mangue e livros em objeto de análise. Esquivou-se da pele, fez vistas grossas à medula.

Nada disso evitou a angústia e a impressão, à flor da pele, de estar imersa no caos. O inferno não são meramente os outros, há todo um mundo lá fora, incontrolável. Um mundo que flui como as águas de Heráclito, ou pior, rio sem nascente ou foz, sem direção.

Ela o ama, ao seu modo o ama. Construiu diques e desvios, não é? Impossível evitar, impor ordem é mais que um hábito, é vital. Talvez por isso a chamem de opressora.

Eu a vejo de outra forma. Ela não é feia, muito pelo contrário. Falar, porém, de nariz, boca, olhos e orelhas, ou mencionar curvas acima ou abaixo do umbigo não adianta. Belíssima, não se resume a linhas, cores, textura. Sei que frustro o gosto ao evitar imagens, mas a ela não apetece face, apenas Self. Seu espelho é de outra ordem. Ele me mostra, conquanto pelo avesso, um pouco de treva e de luz, angústia e promessa de remissão, não de pecados, que não há, dos grilhões que ela própria criou.

Eu devia saber tudo, sou mais que confidente.

Quantas vezes eu não a vi praticamente nua pelos vãos da cortina! Ela faz de propósito, sabe que a devoro com os olhos. Nada me esconde, nem mesmo o tigre, o mangue, os livros, a pele. A medula. Sei também de suas distrações, da altivez sobre areia movediça, dos sonhos e do despertar, ainda que gradual.

Reconheço que é pouco, há ainda o segredo que me cabe desvendar.

– Olha-me de perto – sugere, afastando-se em seguida.

Essa coisa de convidar e fugir revela muito de si.

– Mais de perto – ordena, antes de se fechar, mantendo distância segura.

Ela não é tola, sabe o mal que me faz. A mim e aos outros, a si mesma. Não podendo evitar, pergunto:

– Acredita mesmo em distância segura?

(Continua)

Publicado originalmente em http://www.candeia.jor.br (Coluna Memória Trêmula de 18/02/2015)

Imagem: As senhoritas de Avignon, de Pablo Picasso

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