Resistiu quando mencionei os sonhos. Eu protestei, lembrando-a do consentimento, mas ela me acusou de enxerido.

– Apenas testemunho – argumentei. – É o que me cabe, o bordado e o avesso. Além do mais, sem sonhos não há pintura, nem mesmo rabiscos com pretensão a croqui.

Ela acabou por ceder, ainda que a contragosto. Afinal, sonhos não são direito, ninguém sonha por querer. Ariscos, eles chegam de mansinho, enredam e nos levam a outros, pela ordem sabe Deus de quem. Transpiram pelas tramas epidérmicas, pulsam da medula óssea. Nem sempre bons, por vezes assombram, pesam, despem-nos das ilusões.

O seu foi mais ou menos assim:

Começou enfileirando os livros.  Nas prateleiras de baixo os de filosofia,  literatura e religião,  em virtude da afinidade; na parte mais visível, as várias ciências, tudo pela ordem de autor e título.

– Ótimo – disse, descansando sobre o tapete macio, de couro de tigre. Não era azul, como o de Borges, mas tão listrado quanto. Inexplicavelmente felpudo.  Ela estranhou, pois não era de urso, muito menos de coelho.  Branco como o de Alice. Um branco intenso como a neve, quase azul;  listrado de preto. E macio, tanto que se sentiu afundando. O tigre convertera-se em mangue branco, preto, felpudo, aquoso e quente como a vida.

À medida que afundava, notou um livro de ciências entre os religiosos. Irritada, apanhou dois de religião promiscuindo-se aos de sociologia e várias ficções em área restrita à história.

– Não é possível – balbuciou, enquanto imergia no mangue branco, quente e pegajoso. Inodoro. Não considerou o fato de estar sonhando, afinal quem reconhece o sonho ao sonhar?

Revoltada com a ousadia dos livros, pouco se lhe deu que afundasse e não fruiu da umidade quente, peluda e viscosa que minava das listras róseas e perfumadas. Só podia pensar nos livros, nos danados desobedientes.

– Vão aprender – ameaçou, soerguendo-se da lama fétida, incolor e fria. Esticando-se, resvalou sua cólera pelas lombadas, derrubando os exemplares de baixo. Os demais, tangidos pela inércia ou pelo vácuo, tombaram aos borbotões, entulhando o aposento.

Não acordou do sonho, o pesadelo a fez despertar.

Continua…

Publicado originalmente em http://www.candeia.jor.br (Coluna Memória Trêmula de 11/02/2015)

 

Imagem: Busto de mulher 4, de Pablo Picasso

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