Não se sente bem consigo mesma. Ninguém sabe dizer o motivo, nem ela própria. Sabe-se que o mal-estar não é de hoje, deve ter começado um pouco depois da infância, talvez na puberdade, não antes dos primeiros passos, vacilantes, pelo imenso jardim. Já a ouvi culpar o mundo. Certa vez, encantada por Sartre, declarou:

– O inferno são os outros!

Ela sabe que não é assim, ou melhor, que não é bem assim. Diz por dizer, por enfado, aversão à controvérsia. Não é tola, muito pelo contrário. Apenas não se sente bem, principalmente consigo mesma.

Antes de continuar, previno-os, não sou indiscreto.

É verdade que revelarei muito, inclusive de sua intimidade, tudo por obra de seu consentimento. Direi, entre outras, que causou e causa muito mal, nem tanto por querer. Ela não é má em si, o mal em si não existe, não é mesmo?

Meus amigos, por exemplo, sabem de sua índole irascível, mas quase nada de seus encantos. Ela, porém, conhece um pouco de cada um, guardando, por prudência, distância considerável. Guardar distância é um de seus vícios, quem sabe o pior, mas enfim é de sua índole exercer controle.

Certa feita a flagrei tirando de um canto e dispondo em outros.

Gatuna, pôs-se a organizar, um item aqui, outro acolá, este acima, estoutro abaixo e assim sucessivamente. Satisfeita, recolheu-se e dormiu, acreditando que tudo estava finalmente em ordem.

Mas havia os sonhos.

Continua…

Publicado originalmente em http://www.candeia.jor.br (Coluna Memória Trêmula) em 04/02/2015

Imagem: As mulheres de Argel, de Pablo Picasso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s