[Por Vanessa Beatriz Bortulucce]

Nossa comunicação não poderia ser de outro modo. Talvez a hora da realidade logo se aproxime, aquela hora em que será necessário transferir-te para outro corpo, para outra carne, para outro calendário de capa azul. Mas o desejo, este não pode ser negado. Ele sobrevive nos meus pulsos, nos sinais de trânsito, nas entradas dos bancos, nos assentos de metrô, nas contas a pagar, e nas roupas limpas que o sol seca pacientemente. O desejo fica cantando na base da minha espinha. Ele está escondido na tua refeição, nas tuas horas que desconheço. Eu não tenho o menor conhecimento sobre você, apenas te adivinho.

Preciso tornar-me a tua realidade, mas como posso fazer isso? De que forma, de quais artes preciso me aproximar para que você possa me tomar como real? Como faço para que as pessoas todas que vejo todos os dias tornem-se reais? Elas parecem-se todas com caixinhas de músicas, com bibliotecas de costas arqueadas. Nada muito real para mim.

Podem me dizer que aqueles que estão longe não existem, mas a maior não-existência reside e resiste na presença automática.  Se não se sente a carne, não existe a vida. Seria isso? Se não se experimenta o corpo, como sobrevive a mente, você me diria. Internaria-me em um asilo de loucos, diria que não tenho mais condições de sobreviver nesta superfície terrena. Pois, bem, eu admito que nunca tive essa condição, porque ela não existe. Não existem condições para amar o outro.

Eu quero envelhecer. Quero envelhecer enquanto minhas emoções se tornam mais jovens. Assim é a deliciosa contradição que escorre pelos meus dias. Envelhecer como um pássaro. Tornar-me um mural cheio de recortes de jornal, aquele papel que aos poucos adquire um amarelo risonho, distante, de cheiro adocicado, de textura débil. Na minha testa, as pequeninas rugas que já começam a surgir me contam histórias de embriaguez e de teses escritas. Não tenho paciência para contar todas as manhãs seguintes que nasceram na minha testa. Preciso permitir a mim mesma desenvolver a coragem de ir até você. Contudo, há que se cultivar um espaço para os silêncios. Eu sei.

Imagem: A noite estrelada, de Vincent Van Gogh

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