[Filipe Marson]

Pela janela consigo olhar ao longe a leveza dos pássaros que sobrevoam o céu nublado desse dia, parecem se entrelaçar no ritmo da dança que ladeia o voo, tão leve e solto. Olho mais para baixo, para o nível da terra, não percebo a mesma sincronicidade, aqui alçam voos pela cabeça uns dos outros.

Deixando um pouco esse devaneio de lado, que me faz pensar nesse contexto sócio histórico atual, se me permitem, desejo contar uma história sobre mais um desses pássaros, não daqueles bonitos, grandes e onipotentes, mas sim, de um “patinho” feio, que desde seu nascimento lutou com todas as forças para viver e se manter vivo.

Tive contato com tal ave poucas vezes, porém percebia ali grande vontade de viver. Quando era pequena, foi colocada em uma escola especial. Possuía um gesto carente, sempre sedenta por um abraço, por um afago que encontrava no colo das “tias” passarinhas. Nessa altura vocês devem estar se perguntando sobre sua família. Sim, havia uma, entretanto não podia contar com ela. E cheirava mal, vivia suja e era sempre aquele tipo estranho, pelo que ouvi falar, sempre suplicando pelo elo, diria até pelo entendimento.

Não sei muito bem como foi sua adolescência, mas acredito que as mazelas da pobreza e a falta do olhar de um reino centralizador de riquezas não a perceberam. A família também não era olhada por quase ninguém. Utilizava-se de formas não usuais para evitar o próprio sofrimento. Não tinham contato com cultura, lazer e outras formas de despertar a criatividade, se viravam com o que tinham e infelizmente tinham muito pouco.

A ave cresceu, deu à luz a um filho, que lhe retiraram por pensar que não seria capaz de cuidar, e mais uma vez padeceu. Pensava diferente dos demais, seu comportamento era distinto, sua fala era quase incompreensível, e mesmo assim buscava o contato, desejava ser notada, ser vista. Infelizmente, ninguém pode compreende-la, e também sem entender o que lhe acontecia, tentou ser notada de outras formas.

Assim, abusaram, maltrataram, bateram, arrancaram-lhe as penas e continuaram a não entendendo, em busca de um lugar e de asilo implorava. Poderia até recorrer a espaços menos destrutivos, no qual cuidavam das criaturas, todavia o leão rugiu mais alto, espantando-a, pronunciando que ali também não era seu lugar. Mas qual era então? A história se repetia e se repetia…

Perdida e cansada, já não possuía forças para continuar. Nunca esquecerei quando num dia desses me noticiaram que a ave alçou o último voo. Paro e continuo olhando novamente os pássaros além da minha janela, posso imaginar em outra esfera um lugar todo verde, num fundo azul incandescente, no qual a ave gorjeia feliz, quem sabe tenham finalmente a encontrado.

*Homenagem a uma lutadora desse sistema disfuncional que insistimos em não ver.

Originalmente publicado no blog parceiro:

http://www.candeia.jor.br

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s