[Vanessa Beatriz Bortulucce]

Coloco água para ferver. Sinto uma necessidade de tomar uma xícara de chá. Estou sentada sozinha na cozinha, deve ser umas dez horas da noite, ou ainda talvez mais cedo, estou sentada esperando a água ferver. O mundo está tão quieto que parece que ele todo está esperando por este caldo quente. O saquinho de chá me sussurra várias promessas desidratadas em forma de hibiscos, maracujá, groselha e outros lilases comestíveis. Eu estou aqui na cozinha que nem é minha, eu ouço o telefone tocar, nasceu mais uma criança na família, e a minha alegria agora é esperar o chá ficar pronto. De repente parece que o universo todo está se multiplicando e que apenas eu encolho e me retorço, como uma árvore anciã. Vidas nascendo ao meu redor, e a superfície da mesa aqui da cozinha transforma-se em um deserto árido. Minha nuca, meus pulsos, minhas pernas, o meu organismo todo se sente estéril e triste. Sinto-me o som de um único oboé no espaço. Delicados sistemas circulatórios sendo formados a cada minuto, prazeres transformando-se em carne ainda transparente, e eu aqui esperando o meu chá. Em todas as línguas possíveis neste mundo, a vida nascendo como brotos macios de se mastigar, e eu vejo o xadrez da toalha da mesa da cozinha como um pequeno deserto.
Minha xícara de chá, meu tuareg.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s