Vanessa Beatriz Bortulucce
Historiadora da arte

Na festa, comemoram-se mais as tristezas e os perigos passados do que as reais alegrias. Comemorei dançando todas as perdas, porque eu ainda continuava lá, eu ainda continuava testemunha de todas as mazelas e não tinha perecido. As alegrias podem ser lembradas em qualquer hora do dia, em qualquer data e época, elas não doem muito, mas a tristeza, que às vezes nos apavora só pela simples lembrança, esta prefiro colocar para fora de meu corpo junto com o suor alcoólico de meus gestos.

Eu gosto de observar o sorriso e o olhar dos sofridos. Existe algo de joalheria neles, algo duramente burilado, talhado, aplainado e polido que os torna singularmente solitários ao mesmo tempo que carregam nos braços toda uma geração e suas histórias. Não é algo exclusivo dos velhos, tampouco característica dos doentes. É ainda mais belo nos jovens, observar o ontem em seus rostos, compreender que não conseguimos nos livrar daquilo que muitas vezes recusamos a acreditar que tenha sido real.

Ela estava dançando freneticamente ao som de todas aquelas músicas antigas, e de repente, como se alguma pane tivesse colocado seus circuitos internos em total contradição, sentou-se em uma cadeira vazia e observou a noite aberta, escancarada com campo, as árvores em seus tons de verde simplórios, e ficou ali, mão apoiada no queixo, pensando em como a beleza, às vezes, adora andar fantasiada de mendiga e desgraçada, como ela gosta de morar nas notas de rodapé da respiração humana.

Eu não entro em competições estúpidas para saber quem se sente mais sozinho naquele grupo, porque sei que todos os são. Os casados, os funcionários públicos, as donas-de-casa, os pós-doutores, estamos todos sozinhos e nos queixando pelo canto da casa. Ele havia me perguntado, enquanto acendia mais um cigarro, se eu estava feliz. Depois de alguns anos separados, é uma das primeiras perguntas que são feitas, o que você anda fazendo, como está indo a vida e logo em seguida: você está feliz? Eu resolvi não responder de imediato, preferindo tragar o meu cigarro olhando para o horizonte, e isso foi uma resposta, e ele me disse: eu também não me sinto feliz apesar de meu emprego, namorado, carro, salário, etc etc etc. Como se um deus teimoso tivesse cortado a minha língua, eu nada disse, e fiquei brincando com as pedrinhas no chão. Ele me confessou que o amor já tinha perdido há um certo tempo a sua agitação, aquela emoção borbulhante, de como estava perdido e não sabia o que fazer. Eu, que há algum tempo não sei o que é estar com alguém fisicamente, disse a ele para ser mais paciente, para manter-se calmo, e outras coisas que para mim mesma era um punhado de asneiras de almanaque. Disse algumas palavras apenas para cumprir uma função calculada de amizade que se importa e se envolve com o drama alheio, mas a verdade é que eu nada poderia dizer sobre o amor que não conheço, ainda mais sobre o amor dos outros. Se eu tivesse sido sincera, diria para ele se acostumar com tudo isso, que o amor carrega consigo uma boa carga de desgraça e que em algum momento você vai ouvir todos os perigos cantando debaixo da tua janela, colocando em insônia o teu coração.

 

Imagem: O baile no moulin de la Galette, de Pierre-Auguste Renoir

 

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