Quando eu lecionava Teoria da Comunicação em São Paulo, costumava dizer que não existem analfabetos; que todos somos leitores, pois o mundo exige decodificação assim como os livros.

Havia em meu dizer, obviamente, interpretações que fiz de autores da área de semiologia, semiótica, linguística; mas havia também minha admiração por inúmeras pessoas que conheci ao longo da vida que jamais aprenderam a ler e a escrever e que liam o mundo em profundidade.

Ler é decodificar, isto é, substituir letras e palavras pelas coisas que elas evocam. Quando observamos as coisas do mundo – árvores, montanhas, ruas, sorrisos, ruídos – fazemos algo parecido, impregnando de significado o que vemos, ouvimos, tocamos, sentimos.

Parece algo banal, mas não é: ninguém nasce sabendo ler o mundo, da mesma forma que ninguém nasce sabendo decodificar uma escrita. Ambas as técnicas são aprendidas ao longo da vida, cada dia um pouco mais.

Lembro-me de um senhor que previa com segurança, pela simples observação dos ventos e de outros fenômenos da natureza, se choveria ou se teríamos geada dias depois. Ele folheava as páginas do mundo da mesma forma que nós, alfabetizados, passamos nossos olhos rapidamente pelas páginas de um livro, fruindo de seus múltiplos significados.

Entender a leitura como algo exclusivo a quem é alfabetizado significa relegar pessoas, povos e culturas ágrafas à condição de inferioridade, quando na verdade a leitura em profundidade do mundo exige igual teor de inteligência, atenção e respeito pelas coisas que a vida ensina.

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