Quem já viu o diabo cara a cara e desejou conhecê-lo?

Pois bem, li O diabo de Liev Tolstoi muitos meses após concluir a escrita de meu Felicidade, substantivo feminino. Se tivesse lido antes, talvez o desfecho para a história de adultério de meu protagonista, Grego Fortunato, fosse bem diferente.

Eu certamente não conseguiria apagar de minha memória e de meu coração certas passagens, como a que antecipo aqui, que diz muito sobre as questões morais presentes no enredo tão trágico quanto banal desse exemplo de narrativa russa do século XIX:

“Será possível que eu não consigo me controlar?”, pensava. “Será mesmo que estou perdido? Meu Deus! Ora, não existe Deus nenhum. Existe o diabo! E é ela. Ele se apossou de mim. Mas eu não quero, não quero. É o diabo, sim, o diabo.”

A perdição, para Ievguiêni Irtiêniev, o protagonista de O diabo, tem a ver sim com a desonra por se apaixonar por uma mulher situada em posição social inferior – a obra nos esclarece sobre o secular preconceito social e de gênero. Contudo, tem muito mais a ver com a ruína de sua autoimagem, a de um homem que acredita ter o controle de seu próprio destino.

Escrito em 1898 e publicado postumamente (1916), provavelmente por conter traços autobiográficos, as entrelinhas da narrativa nos falam sobre as pulsões que se assenhoram de nossas escolhas, nocauteando a razão.

Tolstoi escreveu O diabo dois anos antes que Freud começasse a publicar sua obra. Para mim, contudo, é difícil evitar a sensação de que suas Letras insinuam a luta entre Eros e Tanatos. Revolvendo-se nos Infernos (mundo subterrâneo de nós mesmos), as pulsões emergem na consciência, por vezes colocando-a em xeque.

Como é praxe nas grandes obras da literatura, a tragédia de Ievguiêni Irtiêniev não é só dele; de certo modo ela nos atinge a todos, pois: “De fato, se Ievguiêni era um doente mental, então todas as pessoas são igualmente doentes mentais, e mais ainda aquelas que enxergam nos outros os sintomas de loucura que não enxergam em si mesmas.”

Mas enfim, como o propósito aqui não é cometer spoiler, fica mais essa dica para quem ama literatura de primeira.

(Não  se esqueça de enriquecer este espaço com seu super bem-vindo comentário).

 

Li o livro no formato e-book em edição da Cosac Naify, a qual não faz mais parte do catálogo. Encontrei, contudo, também em e-book, a edição não menos primorosa da L&PM POCKET. E por apenas R$5,70.

 

 

 

 

4 comentários sobre “O diabo de Tolstoi

  1. Uma boa dica e vou concerteza ler esta obra. Pelo pouco que li sobre esta historia trouxe a curiosidade de me intrigar com esta literatura, obrigado pela dica 👍👍👍👍😎

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