Mia Couto não é novidade, o escritor moçambicano é consagrado. Publicado em 1992 e eleito como um dos melhores livros africanos do século XX, seu livro Terra sonâmbula foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Tive o prazer de ler nas férias de janeiro, em minha viagem quase anual ao nordeste de Minas Gerais – justamente nas proximidades dos Sertões, Veredas de João Guimarães Rosa. Mera coincidência? Não sei dizer, mas o fato é que a prosa de Mia Couto faz lembrar, quase de imediato, à do criador de Riobaldo, Diadorim, Hermógenes e muitos outros personagens que povoam a narrativa de Guimarães Rosa.

O principal cenário de Mia Couto é um ônibus abandonado em uma estrada poeirenta, no qual Tuahir e Muidinga encontram abrigo. O pano de fundo é a devastadora guerra civil que incendiou o país entre 1977 e 1992: os corpos carbonizados encontrados no interior do veículo fazem alusão ao ambiente de morte e de miséria resultantes do conflito.

Há, contudo, outros cenários, da memória e das Letras.

Eles se abrem quando o pequeno Muidinga encontra os “cadernos de Kindzu” na mala de um dos cadáveres. São os seus diários, registros de aventuras que nos são recontadas pela boca do menino, enquanto ele e o velho Tuahir se agarram ao fio de vida representado pelo ônibus perdido no deserto.

O fio é muito frágil: há pouca água e comida, enquanto a presença de fuzis e fantasmas é abundante. No entanto! No entanto a dupla tem em mãos um tesouro, universos paralelos que se abrem à medida que Muidinga folheia os cadernos de Kindzu.

Mergulhados neles, tanto os personagens em questão quanto nós, leitores de Terra sonâmbula, sorvemos da memória e das Letras os nutrientes que nos libertam da barbárie.

Fico por aqui. O prazer da leitura dessa obra maravilhosa, deixo-o a cada um de vocês. E agradeço desde já a todos que compartilharem sua opinião neste espaço.

Li o livro no formato e-book (R$24,99), sendo que a mesma edição impressa (também pela Companhia das Letras) sai por R$44,90.

 

 

 

6 comentários em “Mia Couto e a terra sonâmbula

  1. Excelente livro, considerado um dos melhores livros do sec. XX, li muito rapido, como tudo que leio de Mia. A realidade e o sonho são dois elementos fundamentais na narrativa, no prefácio do livro, este trecho:
    “Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Fantástica obra.

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  2. Marcos, em 2016, quando estava como secretário de educação em Jundiaí, presenteamos os professores da redebcom um encontro com Mia Couto. Na oportunidade ele falou de sua vida em Moçambique e de sua visão sobre educação. Foi uma experiência única. Parabéns pelo seu trabalho neste blog. Abraço. José Renato Polli.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Salve, Renato. Que experiência linda deve ter sido para todos os envolvidos. Muito bom te ver por aqui e, claro, quando estiver a fim, deixa sua indicação de livro (s) para todos nós podermos experimentar cada vez mais desse universo maravilhoso, o da leitura. Forte abraço!

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