Jesus, o maior socialista que já existiu, de Jefferson Ramalho (Edições Terceira Via, 2017), é um livro para ler e compartilhar, como o trecho por ele citado dos evangelhos: “Tomem desse vinho e repartam-no entre vocês” (p.75), disse Jesus aos seus discípulos. Em sua obra, Jefferson enaltece a face humana de Jesus, sua preocupação com os excluídos e seu desejo de um mundo com justiça social.

O autor transita pelas escrituras e pela história com desenvoltura, graças aos sólidos conhecimentos em teologia, ciências da religião e história. Ah, o cara tem uma baita formação acadêmica, então o livro deve ser difícil… De jeito nenhum: o rigor metodológico nas mãos de um excelente escritor tornou a leitura fluida e saborosa. Como o próprio Jefferson anuncia: “Este livro não foi escrito para acadêmicos e cientistas. Foi escrito para aquelas pessoas que […] fazem de tudo para não perder a simplicidade nas palavras, nos gestos e, sobretudo, no coração e na consciência.”

Com sensibilidade, sua interpretação dos evangelhos ilumina aspectos econômicos, políticos e sociais que muitas vezes ficam às escuras. Um deles é o milagre da multiplicação de pães e peixes:

“A condição de escassez e abandono em que aquela multidão se encontrava foi determinante para que o milagre acontecesse. Não, porém, o milagre da multiplicação de pães e peixes, conforme as editoras da bíblia intitulam aquela passagem no Novo Testamento. Parece-me mais coerente afirmar que o milagre de Jesus não foi o de multiplicar os alimentos, mas o de estimular o compartilhamento.” (p.50)

Ao longo dos doze capítulos, Jefferson nos conta, com elegância e muito respeito pela fé, como Jesus representa exemplo a ser seguido. No caso, exemplo de simplicidade, humildade, tolerância e, sobretudo, de amor pelos excluídos, em sua época e nos dias de hoje.

O livro acabou de ser lançado, pessoal.

Recomendo a leitura!

E não esqueça de deixar seu comentário.

Para contatos com o autor e pedidos do livro, escreva para: cafeacademico@yahoo.com.br

7 comentários em “Jesus, o maior socialista que já existiu

  1. “[…] o milagre de Jesus não foi o de multiplicar os alimentos, mas o de estimular o compartilhamento.” Essa passagem me lembrou uma fala do Cortella, compartilhar não é multiplicar ou dividir, até mesmo porque se fossem exatamente a mesma coisa não haveria a necessidade de termos palavras diferentes pra descrevê-la.

    Aproveito e compartilho algo que escrevi. Como já comentei, inspirado por você professor. Obrigado!

    Sobre ler

    Você acha que as situações do seu cotidiano são exclusivas à sua vida? É provável que não, questão de estatística. Bilhões de pessoas, milhares de anos… Leia aí!
    Por sorte, (seja lá qual for a sua definição de sorte) nós temos à nossa disposição algumas ferramentas como, por exemplo, a História ou, até mesmo, as histórias. Experiências capturadas e encapsuladas, materializadas na forma de livros. Seria essa a despertadora pílula vermelha de Morpheus? Essa pílula não é consumida por via oral, e sim, por via mental, consome tempo, atenção, memória, felicidade.
    Cito as palavras de um cachorro louco, abre aspas:
    “Graças à minha leitura, eu nunca fui pego desprevenido por situação alguma, nunca me faltou conhecimento sobre como lidar com um problema (com ou sem sucesso) até aqui. Ela não me dá todas as respostas, mas ilumina o que é, na maioria das vezes, um caminho escuro adiante.”
    Enquanto ferramentas são classes, armas são suas instâncias. Alguém já travou as mesmas batalhas que você hoje trava. Um país já guerreou contra o país que você hoje guerreia contra. Faltou a Napoleão ler os registros suecos antes de tentar invadir o território russo? Faltou a Hitler ler os registros napoleônicos? Você não precisa ser um conquistador megalomaníaco para forjar alianças com os livros ou conquistar seus medos mais íntimos. Leia por prazer, busque sabedoria, pois, ler é o investimento que paga os mais altos dividendos. Conforme você constrói seu portfólio de leituras, seu conhecimento renderá com o passar do tempo. Esse rendimento não será meramente simples, será recursivo (computacionalmente falando), será composto (economicamente falando). Você honrará seu processo decisório não apenas com base em sua própria experiência, ao absorver a experiência de terceiros você terá inúmeras oportunidades de adquirir sabedoria. Um bom professor uma vez me disse (na verdade, ele disse pra sala toda mas esse não é o cerne da questão), “sábio é aquele que aprende com os erros dos outros”.
    Deixando a História de lado, vamos falar das histórias agora. O limite para os ensinamentos da literatura é determinado por um único fator, criatividade. É através dela que podemos viver outras vidas, em outros tempos, sermos outras espécies ou, diriam alguns, dizer verdades tão duras que não podem ser apresentadas fora do campo da Arte.
    A literatura permite a criação de conexões emocionais, de Brás Cubas a Macunaíma, com os personagens. Umberto Eco aponta que “muitos personagens de ficção ‘vivem’ fora da partitura que lhes deu existência, e se mudam para uma zona do universo que achamos muito difícil delimitar.” A extensão do impacto do martelo literário vai muito além do horizonte. Sem a poesia lírica do trovadorismo, origem da Língua Portuguesa, você não estaria lendo este texto neste exato momento. Sem (o inferno de) Dante, não haveria Italiano. Que rumo teria tomado a civilização ocidental sem a tradução da bíblia por Martinho Lutero? Mesmo que você não tenha acesso às grandes obras, as grandes obras têm acesso ao seu cotidiano, no seu pensamento e na sua fala.
    O ato da leitura permite também a sinergia entre leitor e autor. Sobre essa relação, Sartre diria que “a leitura é um pacto de generosidade entre o autor e o leitor; cada um confia no outro, conta com o outro, exige do outro tanto quanto exige de si mesmo. Essa confiança já é, em si mesma, generosidade: ninguém pode obrigar o autor a crer que o leitor fará uso de sua liberdade; ninguém pode obrigar o leitor a crer que o autor fez uso da sua. É uma decisão livre que cada um deles toma independentemente.”
    Liberdade, direito garantido pela nossa constituição e ponto de discussão recorrente para aqueles que vivem em uma democracia (?), o próprio Sartre oferece interessantes comentários sobre a relação entre a liberdade de escrita e a liberdade do indivíduo. Não se escreve para escravos, a arte da prosa está aprisionada ao único regime em que ela tem significado, democracia. A ameaça à democracia implica diretamente na ameaça à arte da prosa.
    Não há como falar de liberdade sem pensar em fazer escolhas, na arte do possível, mas as histórias nos oferecem uma riqueza de possibilidades. Na verdade, escasso, é o tempo.

    “Vejo, porém, que, todos aqueles que ensinam, praticam o que ensinam a fim de edificar pelo exemplo os que aprendem, da mesma forma que os estimulam pela palavra.”
    Xenofonte, aluno de Sócrates.

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    1. Lindo texto, meu caro Paulo. Permita-me reproduzir: “Não se escreve para escravos, a arte da prosa está aprisionada ao único regime em que ela tem significado, democracia.” Faço-o para que se fixe em minha mente e em meu coração de forma indelével. Muito obrigado por suas palavras – elas certamente merecem saltar daqui (comentários) e ir ao encontro de muitos leitores.

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  2. Agradeço ao professor Marcos Capellari pela amizade e generosidade da leitura e da resenha. Devo salientar que neste livro o meu objetivo não foi tratar da elaboração teológica e dogmática acerca de Jesus construída ao longo da história por parte dos intelectuais cristãos. Antes, meu interesse foi o de tentar entender a vida e o pensamento de uma figura humana, comum, personagem da história como qualquer outra, ainda que influente, a partir das narrativas que trataram de apresentá-la. Não é, portanto, um livro religioso! Ao contrário, proponho uma releitura a respeito das posturas políticas, sociais e até econômicas deste sujeito que, sem dúvida, é o mais conhecido em toda a história do ocidente. Ao identificar os encontros e os desencontros entre a história desse judeu injustamente condenado à morte e a corrente ideológica mais odiada dos últimos 150 anos, procuro convidar leitores e leitoras para uma reflexão não apenas sobre Jesus de Nazaré ou sobre o Socialismo, mas, acima de tudo, sobre o nosso tempo e, em particular, sobre o cenário político-social-econômico do Brasil nos últimos dois anos. Agradeço uma vez mais pelo privilégio que o professor Capellari me proporciona em participar deste espaço e aproveito para informar que quem tiver interesse em ler o livro, por favor, escreva-me por e-mail cafeacademico@yahoo.com.br ou in box pelo facebook https://www.facebook.com/jefferson.ramalho.35

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu que agradeço o privilégio de ler um livro tão bacana e esclarecedor, Jefferson. Você já sabe, né? Este espaço é seu e de todos nós que gostamos de ler, escrever, enfim, de surfar com as palavras e, surfando, encontrar o que se encontra sobre e sob as ondas.
      Parabéns pelo livro. E que venham outros!

      Abraços!

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  3. Perdoem-me mas não compartilho desta posição acadêmica de um “jesus” socialista… O Catecismo da Igreja Católica condena esse messianismo secularizado a partir do parágrafo 675! A ação de Cristo não é somente na história mas transcende o tempo e abre o céu para seus filhos…Esse jesus histórico, político, em sentido estrito, é muito mais Barrabas, ou na pior das hipóteses um Tche Guevara coroado com os espinhos da “causa”. Não reflete em nada a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade anunciada no Evangelho de São João…Este personagem não suportará o rigor histórico…

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    1. Caro João Filho:
      Entendo sua opinião, respeito-a muito, pois conheço bem o catecismo da Igreja no que tange à dogmática cristológica. Mas, estou mais próximo das decisões por abertura, tolerância e diálogo do Concílio Vaticano II. Embora eu não seja católico nem evangélico (já fui ambas as coisas no passado), continuo, como pesquisador, estudando o cristianismo, sua história e seu pensamento. Não faço uma leitura teológica da religião cristã e de suas convicções de fé. Antes, entendo-as como construções culturais e discursivas, como quaisquer outras. E se há alguma tendência teológica da qual me aproximo, embora não a siga, pois não professo nenhuma corrente de fé do cristianismo, esta é a Teologia da Libertação. Gosto muito de ler os católicos Dom Pedro Casaldáliga, Ivone Gebara, Frei Betto, Leonardo Boff, Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino, José Comblin, João Baptista Libânio, além de outros tantos. Também gosto dos protestantes Walter Altmann, Richard Shaull, Jurgen Moltmann, Rubem Alves, Rudolf Bultmann, Milton Schwantes entre outros. Também, como historiador, gosto de pesquisas a respeito de Jesus de Nazaré como personagem histórica comum (cf. John Domenic Crossan e André Leonardo Chevitarese). Penso, portanto, meu amigo, que Jesus de Nazaré é muito mais (ou, quem sabe, muito menos) do que aquilo que os Catecismos (católico e protestantes) afirmam. É necessário ultrapassar as fronteiras, pensar em outras possibilidades e, acima de tudo, conhecer o olhar do outro. Um fraterno e forte abraço.
      Esperança, sempre!
      Com gratidão,
      Jefferson Ramalho

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      1. Igualmente fica registrado meu respeito! Mas tenho uma cosmovisão transcendente! Se o mundo melhor esta no futuro, como será o fim! Será q conseguiremos construir o socialismo utópico… São Tomas Mores, ja discorria sobre isso 300 anos antes de Marx… E sua conclusão é de q não seria possível fazer aqui na terra esse novo Eden! Tudo tem causa e efeito! Se chegarmos no fim e não atingirmos a sociedade perfeita, a nossa existência teria sentido? Ou somos mesmo um ser para a morte?

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